quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um juridiquês pra falar de justiça

Ontem à noite, estava fazendo um comentário ao post do Rafael Zanatta quando me deparei com a seguinte questão: o jurista fala um juridiquês que poucos entendem, mesmo entre os juristas. Na verdade, fiquei um tempo pensando acerca do assunto.
No passado, já havia enfrentado esse problema. Lembro-me que quando estava na Unitrabalho, fazíamos o acompanhamento de uma futura cooperativa de leite e estávamos justamente discutindo o estatuto que a cooperativa teria. Chegávamos pra discutir um assunto e parecia que ninguém estava entendendo nada, somente uma mulher por lá e um outro cara que se dispunham a fazer alguns comentários.
Depois de alguns encontros, quisemos saber por qual motivo não se interessavam em discutir o estatuto e descobrimos que, apesar do grande interesse que tinham em formar a cooperativa, o estatuto era como que uma barreira para eles. Simplesmente não entendiam!
Penso que tinham razão. Alguns termos realmente são de compreensão não tão fácil e requerem um certo tempo pra se habituar.
Só que depois fomos descobrir que a maioria das pessoas somente havia terminado o ensino fundamental, sendo que a mulher que se dispunha a comentar os assuntos tinha terminado um curso superior e o homem que também se manifestava tinha terminado o ensino médio, pelo menos, minha memória não me ajuda muito nessa hora. Lembro que a nossa solução para o caso, foi de elaborar um dicionário com as palavras que julgávamos serem mais complicadinhas.
Independente das influências e da vontade das pessoas, creio que algo que fazia o tal estatuto ser intransponível para alguns era a falta de leitura.
Me parece que esse hábito não é incorporado pela cultura brasileira. Foram raras as vezes que encontrei alguém lendo por prazer em algum momento em locais públicos aqui em Maringá. Creio que tirando as linhas que vão para a UEM, não me lembro de ver alguém lendo dentro do ônibus.
Agora, pergunto: se não se tem o hábito de ler, se não se tem o hábito de consultar o tão famoso dicionário, como uma pessoa vai adquirir uma linguagem mais apurada? Como ela vai entender até mesmo as notícias do Jornal Nacional? É necessário um vocabulário mínimo para se entender certos assuntos.
Talvez seja por isso que o brasileiro seja tão conformado com a situação posta. Ele não entende o que está acontecendo e acaba "deixando a vida o levar".
Grande exemplo disso é minha mãe, Dona Eva. Eu ficava pegando no pé dela, falando que ela deveria ler mais, pois pois ela não conseguia captar o significado daquilo que ela lia. Não queria dizer para ela, mas o problema dela era o da maioria dos brasileiros: era uma analfabeta funcional.
Só que o que aconteceu: por algum motivo, não sei qual mesmo, ela comprou um livro - um desses de autoajuda, não me recordo. Pois bem, leu esse, comprou mais um, também o leu, emprestou outro, leu até metade, pois a "história não a cativou". Mas não desistiu e continuou com suas leituras.
Numa confissão, creio que desde o começo do ano, tirando os livros que tenho que ler na faculdade, ela deve ter lido mais livros do que eu, tenho quase certeza disso.
Mas o que acontece, ela agora criou esse hábito interessante de ler as coisas, está compreendendo aquilo que lê. Até mesmo a bíblia passou a ser uma leitura mais agradável para ela, pois as palavras lhe parecem mais amigas agora.
Trespassando isso para o começo do post, sobre o os problemas do juridiquês, creio que não seria necessário que os juízes e juristas em geral fizessem como aquele juiz da Bahia que proferiu uma "sentença para marceneiro ler", pois creio que o mesmo chegou ao extremo.
O interessante seria ter uma linguagem mais acessível àqueles que desejam entender o que o jurista está falando. Me parece claro que algumas palavras não podem ser "facilitadas" devido ao fato de haver todo um conceito por trás delas, mas penso que é dever do jurista se fazer entender por todos e não apenas por seus pares.
Só que o hábito da leitura também ajuda nesses casos. A pessoa que lê mais tem mais facilidade para compreender o contexto de outras áreas, consegue compreender no mínimo o que o Bonner fala diariamente, até mesmo os comentários sobre as questões jurídicas.
Afinal, falar de justiça seria só para alguns?

3 comentários:

  1. Brilhante colocação. A questão da leitura é um ponto crítico da formação cultural do Brasileiro. Por isso que votaria no Cristovam Buarque, que diz ser a educação o eixo fundamental para todas as mudanças no Brasil. O cara tá certo. Será que vamos ter que forçar os políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas para eles finalmente sentirem na pele a gravidade da situação (existe em projeto de lei elaborado pelo Senador Cristovam que diz isso).

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  2. 1. ler em ônibus me embrulha o estômago ¬¬
    2. muitas pessoas que cursam a graduação não sabem português...
    3. acho que deveríamos aproveitar o embalo da reforma ortográfica e realizar um movimento favorável à educação...
    sería uma ótima desculpa e pretexto para o governo dar enfoque à educação sem ter que aceitar sua falência...
    4. quanto à escola pública, eu mesma sempre estudei na rede estadual e garanto que existem ótimos colégios... mas que a participação da comunidade é de fundamental importância.
    Bom... entendo que na verdade o problema é um pouco de todos, um pouco de cada um. E iniciativas como "pegar no pé pra ler" ou um "café com prosa" são muito bacana... rs ;)

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  3. Concordo plenamente que a leitura nos faz ver o mundo por um novo ângulo, proporcionando-nos entender os fatos 'corretamente' e criarmos um senso crítico para sabermos selecionar as inúmeras informações q estão dispostas por ai.
    Quanto à escola pública, tudo bem que muitas não condizem com a necessidade dos estudantes, mas assim como a Thata, estudei em uma excelente escola pública.
    O problema de hábito de leitura começa em casa. Se os pais lêem, consequentemente seus filhos vão ler... é por aí que se poderia começar a mudar alguma coisa

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