segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Alberto

A noite era fria. Perto de onde morava, havia uma neblina intensa. Saiu de casa apenas para dar uma volta, em casa se sentia muito sozinho, principalmente num sábado à noite. É certo que fora de casa também iria estar sozinho, porém a rua, as árvores, os edifícios iriam dar uma sensação de companhia bem mais aconchegante que aquela de sua moradia com apenas dois cômodos.

Passava da meia noite e meia, parou para acender um cigarro. Andara várias quadras e agora já não reconhecia os edifícios ao seu redor. Coisa rara, pois sua cidade era tão pequena, que ele a conhecia de quase todos os ângulos.

Já no quinto cigarro estava em uma estrada de terra. Via-se a neblina, sentia-se o ar úmido. A cidade estava ao alcance de seu olhar, mas apenas piscava para ele. João Alberto, nome dado pelo pai em homenagem ao avô, não sabia onde estava indo, sabia que estava indo.

Três quilômetros passados da última casinha, Alberto encontra um poço ao lado da estrada. Velho poço seco que fora esquecido por todos. Até mesmo seu dono não se lembrava de sua existência. Construído há muitos anos durante uma seca terrível, na qual as pessoas brigavam por água. Alberto sentiu que aquele era o lugar para o qual se dirigia. Havia uma voz falando suavemente no seu subconsciente que ali acabaria sua eterna solidão. Havia no poço um ar mágico que encantou Alberto. Talvez fossem a escuridão e a neblina, mas o poço estava realmente misterioso.

Agora Alberto caminhava lentamente em direção ao seu destino. Como o destino era certo, não havia motivo para ele se apressar, pelo contrário, havia uma necessidade de ele se preparar nos metros que ainda faltavam para atingir seu objetivo.

O frio ficava mais intenso e seu sobretudo preto já não era mais suficiente para o manter aquecido. Esfregava as mãos instintivamente. Com um andar lento e constante se dirigia ao poço, preparando-se para o encontro.

Agora, o poço se dirigia a ele. Três metros, dois metros e meio, um metro... Estava inerte, ao lado de seu destino. Ainda não tinha coragem de olhar no fundo dele. O destino que tanto esperara, estava ali e tirava-lhe o fôlego. Ficou ali parado, tentando consertar a respiração. Uns cinco minutos e sua respiração voltava ao compasso original. Tentava retirar forças do fundo de suas entranhas para encarar o esperado destino. Nada importava agora, apenas o fundo do poço.

Junta forças, respira fundo, fecha os olhos, levanta as mãos e se inclina sobre o poço. Não abre os olhos, espera alguns instantes e quando finalmente os abre, no fundo do poço, vê Alberto.

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