quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Nome

Muito de mim foi revelado naquelas linhas despretensiosas e distorcidas escritas por um desconhecido. Não foi a primeira vez e não será a última. Me senti de cueca e havaianas em uma vitrine bem no centro de Maringá. As pessoas olham e tentam disfarçar o riso e eu luto para me lembrar do nome daquele sujeito, que narrou a minha história sem me deixar contar-lhe o meu lado, sem a minha autorização ou ao menos o meu conhecimento.

Ele simplesmente me observou por uns dias, reuniu algumas informações com alguns amigos e familiares, regurgitou um texto mal redigido e o publicou no jornal de maior circulação da cidade. Era simplesmente uma fotografia desfocada que absolutamente não mostrava o meu melhor ângulo. Pelo contrário, assemelhava-se àquelas dos paparazzi, que esperam aquele vacilo dos famosos para poder vender o seu trabalho sujo. Só que no meu caso era diferente, eu não era famoso, era apenas um trabalhador comum que vivia a sua vida tranquilamente.

Eu pedi e implorei, mas não teve argumento que a fez sentir a minha presença. Logo naquele lugar, cheio de estranhas figuras, resolvi tentar alguma aproximação. Não deu outra, fiquei estático esperando algum movimento dela e as lágrimas rolaram por meu rosto. Foi assim, desse jeito simples, que aconteceu. E não como o desconhecido narrou superficialmente nas linhas daquele jornal. Ele simplesmente não teve piedade e descreveu a cena com  repúdio e ódio.

“Como pode um cidadão trabalhador se rebaixar deste modo por causa um rabo de saia¿ Ao certo não saiu da adolescência ou ainda pensa ser um romântico que morrerá aos vinte e dois.” Essa parte, em especial, me causou imenso asco. Nojo mesmo. Meu estômago deu voltas e mais voltas quando li e reli. Quase não consegui transcrever essa passagem agora nesse relato que faço para você, meu amigo. Imagino o riso escancarado do sujeito, mostrando aqueles dentes, amarelos de cigarro, na frente do computador. Imagino ainda as gargalhadas que deu ao contar o fato com palavras absurdas para a sua empregada. Sim, empregada. Ele não tem mulher. Casou-se para não pagar salário nem décimo terceiro.

Eu também assim o seria, mas não consigo. Não dá para aceitar o fato de acordar ao lado de uma pessoa que não se ama. Quando digo amar, me parece até uma palavra estranha, sem sentido, pois o amor é algo extremo, coisa que vai além da pele, dos olhos, dos sentimentos e da racionalidade. Certa vez, acordei num domingo frio somente para assistir à corrida e me deparei com uma cena que me arrependo pelo resto de minha existência. Sim, havia outra mulher que não ela do lado esquerdo da cama. Não suportei. Com um berro expulsei a intrusa desse lugar sagrado. Até hoje guardo seu sapato vermelho de salto alto para me lembrar do erro e não cometê-lo nunca mais.

Ele disse que havia alguém fora dos padrões dessa cidade. Ficou muito claro que estava falando de mim. Conseguiu notar algumas características, umas duas, e transportar mal e parcamente para o papel, mostrando, assim, as minhas vísceras para toda a sociedade maringaense. Meu nome não estava impresso no papel. E não precisava. Todos que leram já pensaram no rapaz que trabalha na praça em frente à Catedral.

Eu sei que sou um mendigo sentado na frente da Catedral, que se cansou de implorar a atenção do olhar dela. Mas para mim, qualquer sorriso que ela der, é válido. Se aquele texto a fez sorrir, já foi o melhor que escreveram sobre mim. Se aquele personagem conseguiu arrancar um sorriso de canto dela, agora serei aquele personagem até o dia em que o sorriso for para mim.

Agora o personagem já foi caracterizado. Todos os dias faço a mesma coisa. Chego para trabalhar às sete e somente saio da loja às seis e meia. Almoço por lá mesmo, sempre alguma comida que trago de casa e esquento no micro-ondas. Todo dia faço esse ritual. Sou um cara normal, você me conhece, vivo minha vida sem maiores pretensões. Me dá uma alegria imensa quando tem a Festa das Nações aqui em frente. Fico até mais tarde vendo os pais se divertirem e as crianças se entediarem. Acho muito linda essa coisa de ter uma família unida, uma família que ao menos se mostra unida.

Esse é o meu sonho. Mas só pode ser realizado com ela e isso você também sabe muito bem. Você se lembra de cada história que te contei, de cada suspiro que dei em função dela, te contei tudo, meu amigo. Não cabe aqui te contar novamente das minhas histórias com ela que nunca aconteceram. São divagações, suposições e desejos, que já passei horas apenas a supor com você.

Por isso, eu imploro, meu caro. Ajude-me a lembrar do nome daquele infeliz que me expôs dessa forma. Não sei se para esmurrá-lo ou se para agradecê-lo, mas ajude-me. 

*Texto que faz parte dos "Contos maringaenses"

domingo, 13 de junho de 2010

Sobre hoax e interpretações


Permitam-me falar muito sem dizer nada. Recentemente acompanhei a história de um hoax. Digo que acompanhei porque não participei dele, não recebi email algum para repassar ou coisa que o valha. Simplesmente fiquei sabendo através de um amigo e me interessei pela história. Depois de tudo, acabei percebendo que tenho que parar pra prestar atenção nas músicas e não apenas cantá-las.


Aconteceu o seguinte: disseram que aquela famosa música do Djavan, Flor de Lis, teria sido composta em razão da morte de Maria, mulher do compositor/cantor, que veio a falecer durante o parto de sua filha, Margarida. O médico teria dito que somente poderia salvar uma das duas e o cantor teria pedido para que salvasse as duas, o que não aconteceu. Tal história faria sentido ao se pensar que “No pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu” e outras coisas. Na verdade, se você ouvir a música com vontade de entender isso, ou sob essa perspectiva é possível tirar essa interpretação.

Tal história rendeu um verdadeiro fervor na grande rede e também nas discussões de bar. Várias pessoas começaram a se posicionar sobre esse boato que estava rondando a caixa de entrada de todo mundo. Alguns chegaram até a chorar quando ouviram Djavan cantar tranquilamente a música em seu DVD, pregando os mesmos que esse sim era um cara que tinha pulso firme e que acreditava na vida.

Outros ainda despejaram a sua fúria em comentários que diziam acerca do método de composição do cantor, que primeiro fazia a melodia e só então, auxiliado por um dicionário de rimas (pasmem!), é que encaixava a letra perfeitamente, motivo pelo qual algumas letras não fariam sentido se analisadas.

Essa baboseira toda só serviu pra pensar na intersubjetividade da música, da poesia, da arte e coisas afins. Ou seja, eu não ligo se a história é verídica, se é um hoax, ou se foi a própria equipe de imprensa do cantor que a criou para elevar a sua popularidade ou ainda se foi história criada por uma mente criativa dominada pelo ócio ou por drogas pesadas e que acabou por fazer a conexão de toda a narrativa fantasiosa que foi criada. Nada disso importa.

O importante é pensar naquilo que a música significa pra você. Ou melhor, naquilo que a música pode significar. As pessoas pararam um pouco e foram ver o vídeo no youtube.com e tentaram achar um significado que se encaixasse ou não no significado dado por aquela música.

É uma música, é um texto e, por isso, é também passível de várias interpretações e não somente aquela que é perceptível pelo senso comum ou à primeira vista, como desejarem. Creio que aí está expressa a genialidade da música. É poder se perceber que uma coisa pode ser dita de outra maneira e que aquilo que se entende pode ser entendido de outra forma se mudarmos o contexto em que ele está inserido ou o prisma pelo qual se vê. Ou ainda que alguns sons de instrumentos permeados ou não por uma letra podem te despertar sentimentos, e dependendo do momento, sentimentos diversos.

Lembro-me muito bem que foi isso que aconteceu comigo quando ouvi a música One do U2 em determinada apresentação. Sempre pensei essa música como sendo uma canção de amor, algo íntimo mesmo, quase que um casal cantando ao ar livre na calçada de uma praia à noite com a lua refletindo no mar. Pra mim, era algo lindo e estritamente pessoal.

Acontece que nessa apresentação, as imagens que corriam no telão não eram de um coração vermelho ou ainda de um anjinho segurando um arco-e-flecha, mas sim de sul-africanos, moçambicanos, etc. que retratavam uma singular posição de pobreza extrema, milhões sendo ajudados por alguns soldados de capacete azul. Lembro-me de pensar ter visto um deles olhando para mim e dizendo: “Você veio aqui para brincar de Jesus Cristo, meu caro¿”.

Já em 1992, numa apresentação em Sidney que veio a se tornar o DVD Zoo TV, a imagem que aparecia era a da capa do CD, ou seja, um búfalo (?) correndo sozinho e que depois encontra outro, terminando com a citação de David Wojnarowicz, “cheire as flores enquanto você pode”, que se parece muito com a de um grande amigo meu, professor Cássio, que dizia sempre “coma carne enquanto tem dente”.

Em 2001, numa apresentação na Irlanda, não teve imagem de nada mais expressivo, apenas dos integrantes da banda, e, no meu entendimento, Bono Vox estava dizendo que eles, a banda, a equipe que os acompanha e os irlandeses, eram apenas um. Pode-se entender quando se vê uma loira totalmente feliz e com uma lágrima escorrendo pelo rosto. Ou ainda que o namorado dessa loira a deixou na semana anterior, ou ainda que ela briga demais com sua mãe, mas sabe que elas são iguais.

Em outra apresentação, dessa vez em 2005 na cidade de Chicago, e que rendeu o DVD Vertigo, ao relembrar o Presidente Kennedy que em 1963 disse que até o final da década os americanos iriam pisar na Lua e que já no ano de 1969 Neil Armstrong lá estava dizendo que aquele era um pequeno passo para um homem, Bono Vox convida a todos para se unirem em prol de uma causa, acabar com a pobreza extrema no mundo. Dizia mais: não queremos o seu dinheiro, queremos a sua voz. Curiosamente a música entoada logo durante o discurso e que é cantada logo em seguida também é One.

Aquilo que era inicialmente apenas o amor singelo, e não menos bonito, entre um homem e uma mulher tornou-se, desde então, para mim, o amor da humanidade. O amor que deve haver entre as pessoas, conhecidas ou não, que tenham ou não algo em comum. Amor entre as nações, os estados, independentemente da posição em que ocupam no mundo. É desse amor que a música fala, no meu sentir. E é disso que eu to falando, do meu achismo.

Mas acontece que o que sinto é mutável, ou seja, pode ser que alguém comente alguma coisa neste humilde post que me faça mudar de ideia e que eu pense que a música é interpretada de uma outra forma ainda. Não quero com esses comentários definir o que é e o que não é arte segundo a concepção de obra de arte autônoma de Adorno.

Só estou dizendo que há várias interpretações praquilo que se tem na música. Assim como aconteceu com o Djavan, pode acontecer com qualquer escritor, compositor, poeta, artista. Não tem problema, é isso que é bonito na arte, a Monalisa sorrindo pra gente. Por favor, só não matem a mulher do Djavan pra interpretar uma música.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Espelho do mundo


Eu, espelho do mundo,
reflito sobre as coisas
que estão ao meu redor.
Tudo acontece e eu estou parado
no meio desse tiroteio de informações.
Tanta coisa há para fazer
que eu nem sei por onde começar.
Na verdade, nem comecei
e já quero parar.
Se pudesse, encurtaria o caminho
e ainda o virava do avesso.
Começaria do fim e terminaria no começo.
Tudo assim, tão rápido, tão prático.
Como se num relâmpago pudesse tudo ver
e num piscar de olhos,
viesse a cegueira total.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Vai chover

Hoje estou me sentindo bonita. Há uma hora e meia a chuva vem se formando, o tempo começa a ficar mais frio e isso me dá uma alegria imensa. A chuva vem celebrar comigo essa felicidade que insiste em fazer o meu sorriso aparecer. Não há motivo especial nessa felicidade, a não ser a constatação de que sou mulher, uma mulher por completa. Foi o Alcides que me disse isso e agora realmente acho que ele que me torna uma mulher completa. Ele diz que o próximo passo é termos filhos. Ele quer três, mas não de uma vez.

Eu sempre pensei em uma filha, uma apenas. Ela se chamaria Augusta e teria seu primeiro sutiã aos onze anos de idade. Será que seria muito cedo? Talvez. Mas eu tive o meu primeiro aos dezesseis e ainda sinto calafrios só de lembrar daqueles meninos apontando para os meus seios apenas protegidos por uma camiseta branca do colégio. Foram meses assustadores até eu chegar para meu padrasto e pedir um sutiã. Esqueci-me de dizer, minha mãe deixou meu pai porque ele bebia demais, cinco meses depois se casou com o Waldir e depois de um ano morreu após ser atingida por um carro na Rua XV de Novembro. Nessa época eu já tinha uns seis anos.


Waldir sempre gostou muito de mim, mas ele não era muito de falar, muito menos de demonstrar carinho. Mesmo assim, no dia seguinte da súplica, ele apareceu com um sutiã que disse ter comprado por três reais no mercado. Foi nesse dia que me convenci que ele era meu verdadeiro pai. Aquele alcoólatra que minha mãe deixou só tinha colocado a semente, mas esse que fazia minhas vontades era quem havia cultivado e moldado o meu caráter.

Hoje é dia de chuva. É dia de frio. É dia de sopa quente acompanhada de vinho. Hoje é dia de semear.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Seu filme


Hoje vai passar o seu filme na televisão. Eu digo seu porque, pra mim, ele é seu mesmo. Não há outra pessoa que possa ter a propriedade desse filme. Ele é a sua cara. Minto. Ele é a sua alma e por isso transparece na sua cara, no seu modo de ser.

Ontem até vi algumas das poucas das imagens em que estamos juntos. Lembranças que não saem da cabeça. Gostaria de ser um pintor pra poder expressar aquela imagem de uma forma mais condizente com aquilo que senti na hora. Nem os melhores escritores, jornalistas, fotógrafos, etc. conseguiriam descrever aquilo que estaria nessa minha pintura. Uma imagem fala mais que mil palavras, mas essa imagem viria do coração, ou seja, seria necessário multiplicar essas mil palavras por um milhão para que pudessem começar a expressar aquela pintura.

Seu filme. Não vou poder assistir mais uma vez. Amanhã tenho que trabalhar cedo.

É mentira, já estou assistindo. 

Um abraço. Forte.

15.05.08

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ao molho chinês


Há alguns dias que coincidentemente acabo por comer em algum estabelecimento chinês num horário em que não há mais nenhum cliente. Isso se dá lá pelas duas e pouco da tarde, horário em que passa o insuportável programa da Angélica, e também depois das dez horas da noite, quando todos já se preparam para ir embora.
Acontece que por alguns dias só consegui ficar livre nesses horários e o primeiro lugar com comida aceitável a estar aberto era sempre algum desses restaurantes.
Ao pedir a comida ou me servir no buffet, vou tranquilamente para o lugar mais longe possível da televisão e simplesmente começo a comer.
É engraçado, pois quando se está num lugar familiar e com pouca gente, a tendência é que as pessoas se liberem mais, sejam mais elas mesmas. É justamente isso que acontece. Os chineses começam a conversar em chinês.
Detalhe, como sou o único brasileiro no local, parece que sou tratado como um estrangeiro. Até consigo imaginar a conversa deles: “Pô, será que esse brasileirinho aí não vai consumir mais nada? Olha só, já era pra gente estar em casa e o cara está aí atrapalhando! Esses brasileiros não se tocam mesmo!”.
Tem vezes que a TV se torna tão insuportável que até as vozes que saem dele estão em chinês mesmo estando o aparelho sintonizado na famigerada Globo.
Mas eu sei que nada disso é verdade. É provável que as pessoas não digam nada de mais, apenas estão jogando conversa fora como todos os balconistas no mundo e apenas falam em outra língua, pois essa é a forma mais rápida e fácil, levando em conta a dificuldade de se aprender o português.
Mas que é engraçado ficar imaginado o que eles falam, isso é.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

É agora, José!

Bem, agora seria o momento exato pra se dizer as palavras do poeta: "E agora, José?".
Só que não. Não vou dizer essa frase, não exatamente.
Penso que está mais pra um "É agora, José! Vai, menino, que agora é com você!!" seguido de um empurrão clássico pra ganhar a velocidade necessária e conseguir chegar na frente nessa corrida cheia de obstáculos que está por vir.
Tem uma pitada de melancolia, duas xícaras de esperança, dois quilos de sonhos, dois tabletes de alegria e um tantão assim de fé.
Sinto-me feliz com isso.
Claro que há coisas difíceis que terei que deixar pra trás, decisões a fazer, mas a vida é assim mesmo, sempre foi assim, cheia de caminhos a seguir e cada um que se segue é uma decisão que se toma com certas consequências. É a vida, poxa!
Valeu, Maringá!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O disco que eu não ouvi

Tem vez que a gente demora pra perceber alguma coisa que acaba por ser meio óbvia. Se tivesse parado pra pensar, se tivesse tentado encaixar todos aqueles pedaços que são desconexos à primeira vista, a coisa se tornaria de uma obviedade tamanha que dá até vergonha de se dizer que não havia percebido isso antes.
As músicas sempre disseram mais do que eu pensei que diziam. Isso é um fato.

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