domingo, 13 de junho de 2010

Sobre hoax e interpretações


Permitam-me falar muito sem dizer nada. Recentemente acompanhei a história de um hoax. Digo que acompanhei porque não participei dele, não recebi email algum para repassar ou coisa que o valha. Simplesmente fiquei sabendo através de um amigo e me interessei pela história. Depois de tudo, acabei percebendo que tenho que parar pra prestar atenção nas músicas e não apenas cantá-las.


Aconteceu o seguinte: disseram que aquela famosa música do Djavan, Flor de Lis, teria sido composta em razão da morte de Maria, mulher do compositor/cantor, que veio a falecer durante o parto de sua filha, Margarida. O médico teria dito que somente poderia salvar uma das duas e o cantor teria pedido para que salvasse as duas, o que não aconteceu. Tal história faria sentido ao se pensar que “No pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu” e outras coisas. Na verdade, se você ouvir a música com vontade de entender isso, ou sob essa perspectiva é possível tirar essa interpretação.

Tal história rendeu um verdadeiro fervor na grande rede e também nas discussões de bar. Várias pessoas começaram a se posicionar sobre esse boato que estava rondando a caixa de entrada de todo mundo. Alguns chegaram até a chorar quando ouviram Djavan cantar tranquilamente a música em seu DVD, pregando os mesmos que esse sim era um cara que tinha pulso firme e que acreditava na vida.

Outros ainda despejaram a sua fúria em comentários que diziam acerca do método de composição do cantor, que primeiro fazia a melodia e só então, auxiliado por um dicionário de rimas (pasmem!), é que encaixava a letra perfeitamente, motivo pelo qual algumas letras não fariam sentido se analisadas.

Essa baboseira toda só serviu pra pensar na intersubjetividade da música, da poesia, da arte e coisas afins. Ou seja, eu não ligo se a história é verídica, se é um hoax, ou se foi a própria equipe de imprensa do cantor que a criou para elevar a sua popularidade ou ainda se foi história criada por uma mente criativa dominada pelo ócio ou por drogas pesadas e que acabou por fazer a conexão de toda a narrativa fantasiosa que foi criada. Nada disso importa.

O importante é pensar naquilo que a música significa pra você. Ou melhor, naquilo que a música pode significar. As pessoas pararam um pouco e foram ver o vídeo no youtube.com e tentaram achar um significado que se encaixasse ou não no significado dado por aquela música.

É uma música, é um texto e, por isso, é também passível de várias interpretações e não somente aquela que é perceptível pelo senso comum ou à primeira vista, como desejarem. Creio que aí está expressa a genialidade da música. É poder se perceber que uma coisa pode ser dita de outra maneira e que aquilo que se entende pode ser entendido de outra forma se mudarmos o contexto em que ele está inserido ou o prisma pelo qual se vê. Ou ainda que alguns sons de instrumentos permeados ou não por uma letra podem te despertar sentimentos, e dependendo do momento, sentimentos diversos.

Lembro-me muito bem que foi isso que aconteceu comigo quando ouvi a música One do U2 em determinada apresentação. Sempre pensei essa música como sendo uma canção de amor, algo íntimo mesmo, quase que um casal cantando ao ar livre na calçada de uma praia à noite com a lua refletindo no mar. Pra mim, era algo lindo e estritamente pessoal.

Acontece que nessa apresentação, as imagens que corriam no telão não eram de um coração vermelho ou ainda de um anjinho segurando um arco-e-flecha, mas sim de sul-africanos, moçambicanos, etc. que retratavam uma singular posição de pobreza extrema, milhões sendo ajudados por alguns soldados de capacete azul. Lembro-me de pensar ter visto um deles olhando para mim e dizendo: “Você veio aqui para brincar de Jesus Cristo, meu caro¿”.

Já em 1992, numa apresentação em Sidney que veio a se tornar o DVD Zoo TV, a imagem que aparecia era a da capa do CD, ou seja, um búfalo (?) correndo sozinho e que depois encontra outro, terminando com a citação de David Wojnarowicz, “cheire as flores enquanto você pode”, que se parece muito com a de um grande amigo meu, professor Cássio, que dizia sempre “coma carne enquanto tem dente”.

Em 2001, numa apresentação na Irlanda, não teve imagem de nada mais expressivo, apenas dos integrantes da banda, e, no meu entendimento, Bono Vox estava dizendo que eles, a banda, a equipe que os acompanha e os irlandeses, eram apenas um. Pode-se entender quando se vê uma loira totalmente feliz e com uma lágrima escorrendo pelo rosto. Ou ainda que o namorado dessa loira a deixou na semana anterior, ou ainda que ela briga demais com sua mãe, mas sabe que elas são iguais.

Em outra apresentação, dessa vez em 2005 na cidade de Chicago, e que rendeu o DVD Vertigo, ao relembrar o Presidente Kennedy que em 1963 disse que até o final da década os americanos iriam pisar na Lua e que já no ano de 1969 Neil Armstrong lá estava dizendo que aquele era um pequeno passo para um homem, Bono Vox convida a todos para se unirem em prol de uma causa, acabar com a pobreza extrema no mundo. Dizia mais: não queremos o seu dinheiro, queremos a sua voz. Curiosamente a música entoada logo durante o discurso e que é cantada logo em seguida também é One.

Aquilo que era inicialmente apenas o amor singelo, e não menos bonito, entre um homem e uma mulher tornou-se, desde então, para mim, o amor da humanidade. O amor que deve haver entre as pessoas, conhecidas ou não, que tenham ou não algo em comum. Amor entre as nações, os estados, independentemente da posição em que ocupam no mundo. É desse amor que a música fala, no meu sentir. E é disso que eu to falando, do meu achismo.

Mas acontece que o que sinto é mutável, ou seja, pode ser que alguém comente alguma coisa neste humilde post que me faça mudar de ideia e que eu pense que a música é interpretada de uma outra forma ainda. Não quero com esses comentários definir o que é e o que não é arte segundo a concepção de obra de arte autônoma de Adorno.

Só estou dizendo que há várias interpretações praquilo que se tem na música. Assim como aconteceu com o Djavan, pode acontecer com qualquer escritor, compositor, poeta, artista. Não tem problema, é isso que é bonito na arte, a Monalisa sorrindo pra gente. Por favor, só não matem a mulher do Djavan pra interpretar uma música.
Ocorreu um erro neste gadget